Aprender
Inventário de estoque em restaurante: como fazer
Inventário é contar fisicamente o estoque e comparar com o saldo do sistema. Faça com a operação parada, sempre no mesmo horário e na mesma ordem de prateleira. A diferença entre o contado e o esperado é a informação que o inventário existe para produzir.
Por Paulo Gabriel, sócio da Stowage, que construiu o sistema de estoque em uso no Mandinho Burger, em Novo HamburgoAtualizado em 6 min de leitura
O inventário não é burocracia de fim de mês: é o que faz todos os outros números da casa valerem alguma coisa. Sem ele, o CMV é estimativa, o ponto de reposição é chute e a perda por validade é impressão.
Os cinco passos
- Escolha a hora em que a operação está paradaAntes de abrir ou depois de fechar, e sempre a mesma. Contagem feita com a cozinha produzindo conta o mesmo item duas vezes ou nenhuma, e a divergência que aparece depois é do método, não da operação.
- Congele as movimentaçõesNada entra e nada sai enquanto a contagem corre. Entrega que chegar durante o inventário fica na doca, sem ser recebida no sistema, e entra depois que a contagem fechar.
- Conte sempre na mesma ordemPrateleira por prateleira, de cima para baixo, da esquerda para a direita, câmara por câmara. A ordem fixa é o que faz o esquecimento aparecer: quem conta na mesma sequência todo mês percebe quando pulou um vão.
- Conte em dupla nos itens de maior valorUma pessoa conta e diz, outra anota. Nos cinco itens que mais pesam no estoque, vale a segunda contagem cega, feita por outra pessoa sem ver o primeiro número.
- Feche apurando divergência, e não apagandoA diferença entre o saldo do sistema e o contado é a informação mais valiosa do inventário. Ajuste o saldo, mas guarde a divergência com data, item e valor: é a série dela que revela furo de processo.
A conta da divergência
Divergência = quantidade contada − saldo do sistema
Positiva quando sobrou mais do que o sistema esperava; negativa quando faltou. As duas merecem investigação — sobra costuma ser baixa não registrada, falta costuma ser retirada sem baixa.
Um item, um mês
O sistema esperava 34 kg de blend. A contagem encontrou 29,5 kg. O custo é de R$ 38/kg.
Divergência = 29,5 − 34 = −4,5 kg
Valor = 4,5 × 38 = R$ 171
Sobre o consumo do mês (270 kg) = 1,7%
1,7% num item de proteína é um sinal de atenção, não de alarme. O que importa é o mês seguinte: se repetir, existe furo de processo; se não repetir, foi contagem.
O que a divergência costuma significar
| O que se observa | Onde procurar |
|---|---|
| Falta concentrada em um item de valor alto | Retirada sem baixa no terminal, ou porção acima da ficha técnica |
| Sobra recorrente no mesmo item | Recebimento lançado a mais, ou unidade de compra trocada |
| Divergência espalhada e pequena em tudo | Ordem de contagem instável, ou contagem feita com a casa operando |
| Divergência que aparece só no mês do fornecedor novo | Peso da embalagem diferente do declarado: pese uma amostra na entrada |
Nenhuma dessas leituras vale com um mês de dado. É a repetição que separa furo de processo de erro pontual.
Sobre furto
É a primeira hipótese que aparece na cabeça de todo dono e quase nunca é a primeira causa. Erro de unidade, retirada sem baixa e recebimento lançado errado explicam a maioria das divergências. Investigue nessa ordem — e trate a divergência como problema de processo até que os dados digam outra coisa.
O que contar, e em que unidade
Conte na unidade em que o item se movimenta, não na que ele foi comprado. Caixa fechada de 10 kg com três quilos usados é 3 kg abertos mais 1 caixa, e não "uma caixa e meia". Metade de embalagem é onde nasce a maior parte da divergência de contagem.
Itens fracionados guardados sob refrigeração ou congelamento já devem trazer designação, data de preparo e prazo de validade no invólucro, por exigência da RDC 216/2004 (item 4.8.18). Quem cumpre isso conta mais rápido: a etiqueta diz o que é, quando foi feito e até quando serve, sem ninguém abrir a embalagem para descobrir.
Quanto tempo leva
Numa casa com estoque organizado por lote e etiqueta legível, o inventário geral de uma cozinha de porte médio leva de uma a duas horas com duas pessoas. Sem etiqueta, o mesmo trabalho passa de meio turno — e a maior parte do tempo é gasta descobrindo o que é cada coisa, não contando.
Perguntas soltas
- De quanto em quanto tempo fazer inventário?
- Mensal é o mínimo, porque o CMV do mês depende dele. Semanal nos itens de maior valor — normalmente proteína e bebida — dá para fazer em menos de uma hora e antecipa em três semanas qualquer problema que o inventário mensal só mostraria depois.
- Inventário rotativo substitui o inventário geral?
- Não substitui, complementa. O rotativo conta uma parte do estoque a cada semana e mantém o saldo aferido o tempo todo. O geral, com a casa parada, é o que fecha o período e sustenta o CMV. Casas que só fazem rotativo perdem a foto do fechamento.
- O que fazer quando a divergência é grande?
- Antes de ajustar, recontar o item. A maior parte das divergências grandes é erro de contagem ou de unidade — quilo lançado como caixa, litro como unidade. Se a recontagem confirmar, procure na ordem: descarte não registrado, retirada sem baixa, recebimento com quantidade errada.
- Preciso contar item de baixo valor?
- Conte, mas com o esforço proporcional. Uma curva ABC simples resolve: os itens que somam a maior parte do valor do estoque recebem contagem cuidadosa e frequente, o resto entra no inventário geral do mês.
Fontes
- Entendendo o CMV de restaurante: como fazer o cálculo e sua importânciaSebrae PR, por Carlos Alexandre De Abreu Andreasse, 2 de outubro de 2024
- Resolução RDC nº 216, de 15 de setembro de 2004, e a cartilha de boas práticasBiblioteca Digital da Anvisa
- Food Waste Index Report 2024Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (UNEP), março de 2024