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Aprender

FEFO: o que é e como aplicar na câmara fria

FEFO quer dizer first expired, first out: sai primeiro o que vence primeiro. É diferente do FIFO, que tira o que chegou primeiro. Em cozinha os dois divergem sempre que uma entrega nova chega com validade mais curta do que a do que já estava guardado.

Por Paulo Gabriel, sócio da Stowage, que construiu o sistema de estoque em uso no Mandinho Burger, em Novo HamburgoAtualizado em 6 min de leitura

A regra cabe numa frase, e é por isso que quase toda casa acha que já faz FEFO. Fazer de verdade é outra coisa: exige que cada volume tenha uma data legível, que a prateleira esteja na ordem certa, e que quem retira confira antes de levar. Onde qualquer um dos três falha, o sistema volta a ser a memória do turno.

FEFO e FIFO não são sinônimos

SituaçãoFIFO manda pegarFEFO manda pegar
Leite entregue segunda vence dia 20; entregue quarta vence dia 15O de segundaO de quarta
Dois lotes iguais, mesma validadeO mais antigoQualquer um
Carne congelada de outubro e resfriada de hojeA congeladaA resfriada

Nas três linhas o FIFO acerta uma vez. É a diferença entre organizar por chegada e organizar por prazo.

Em depósito de peça de reposição, FIFO basta: parafuso não vence. Em cozinha, o que determina se um insumo ainda serve é a data de validade, e ela não anda junto com a data de entrada. Um fornecedor que entrega hoje um lote de vida curta acabou de furar todo o seu FIFO.

Os cinco passos

  1. Etiquete no recebimento, não depoisTodo volume que entra recebe etiqueta com item, data de recebimento e data de validade antes de ir para a prateleira. Volume sem etiqueta é volume que vai depender da memória de alguém às onze da noite.
  2. Guarde o que vence antes na frenteA ordem física da prateleira faz o trabalho que o cartaz não faz. Ao guardar, o lote de validade mais curta vai para a frente e o mais longa para o fundo, mesmo que o de trás tenha chegado ontem.
  3. Separe o que vence esta semanaUma área marcada, na altura dos olhos, com o que vence nos próximos sete dias. É de onde a cozinha tira primeiro, e é o que o gestor olha ao abrir a câmara.
  4. Confira a validade na saída, não só na entradaQuem retira lê a etiqueta e confirma o lote. É o único ponto do processo em que dá para impedir que o lote errado saia — depois que a caixa está aberta na bancada, já foi.
  5. Descarte com registroO que venceu sai do estoque como descarte, com item, quantidade, custo e motivo. Sem esse registro a perda vira um CMV alto sem explicação no fim do mês.

A conta que justifica o trabalho

Um item, dois métodos

Uma casa gira 60 kg de hambúrguer por semana e compra 120 kg de uma vez, com validade de dez dias. Sem FEFO, cerca de 5% do lote fica para trás e vence — 6 kg, a R$ 38/kg.

6 × 38 = R$ 228 por compra
26 compras por ano = R$ 5.928

O mesmo item, com etiqueta e ordem de prateleira, tende a zero de perda por validade. Os R$ 5.928 não viram lucro sozinhos — mas eles existem, e hoje estão no lixo.

Por que a etiqueta é a peça central

A RDC 216/2004 já obriga a identificar alimento preparado guardado sob refrigeração ou congelamento com designação, data de preparo e prazo de validade (item 4.8.18). Quem cumpre a norma já tem a informação de que o FEFO precisa. O que costuma faltar é a data estar legível de longe, na face que fica para fora, e não escrita a caneta no fundo da caixa.

Onde o FEFO quebra

Sempre no mesmo lugar: na pressa. Meio da noite, cozinha cheia, o lote certo está atrás de dois outros e o errado está na mão. Nenhum treinamento vence esse momento. O que vence é o arranjo físico — a área do que vence esta semana na altura dos olhos, com o resto atrás.

O segundo lugar é o fracionamento. Uma peça grande aberta vira três embalagens novas, e as três precisam de etiqueta com a validade do preparado, não a do original. Sem isso, o FEFO da casa tem um buraco exatamente nos itens de maior valor.

Perguntas soltas

Qual é a diferença entre FEFO e FIFO?
FIFO tira primeiro o que chegou primeiro, pela data de entrada. FEFO tira primeiro o que vence primeiro, pela data de validade. Em cozinha eles divergem sempre que uma entrega nova traz validade mais curta que a do estoque, o que é comum em hortifruti e em laticínio.
FEFO serve para item que não tem validade impressa?
Serve, com a validade que a casa define. Carne porcionada, molho preparado e produto fracionado ganham prazo pela boa prática e pela RDC 216/2004, que limita a cinco dias o alimento preparado conservado a 4 °C ou menos. Essa data vai na etiqueta e entra no FEFO como qualquer outra.
Dá para fazer FEFO sem sistema?
Dá, com etiqueta, ordem de prateleira e disciplina. O que não dá é fazer FEFO sem etiqueta. O sistema não substitui o processo: ele evita que o processo dependa de quem está de plantão hoje.
E quando o lote mais velho está no fundo e a cozinha está com pressa?
É exatamente aí que o FEFO se perde, e a resposta é física, não moral. Se pegar o lote certo é mais difícil que pegar o errado, alguém vai pegar o errado. A área do que vence esta semana existe para tornar o certo o caminho mais curto.

Fontes

  1. Resolução RDC nº 216, de 15 de setembro de 2004, e a cartilha de boas práticasBiblioteca Digital da Anvisa
  2. Food Waste Index Report 2024Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (UNEP), março de 2024