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Aprender

Ficha técnica de prato: fator de correção e rendimento

Fator de correção é o peso bruto dividido pelo peso líquido: quanto de produto comprado é preciso para obter um quilo limpo. Índice de cocção é o peso cozido dividido pelo peso cru limpo. Sem os dois, o custo do prato sai menor do que ele é.

Por Paulo Gabriel, sócio da Stowage, que construiu o sistema de estoque em uso no Mandinho Burger, em Novo HamburgoAtualizado em 7 min de leitura

A ficha técnica é o documento que diz quanto custa um prato de verdade. Não o preço dos ingredientes na nota — o custo depois que a limpeza descartou a casca, o osso e o talo, e depois que o fogo tirou ou acrescentou água.

Quem calcula custo pelo preço de compra sem esses dois fatores subestima o prato em silêncio. E o erro não é pequeno: em hortifruti, o fator de correção passa de 1,4 com facilidade, o que significa que quase um terço do que se pagou foi para o lixo antes de a receita começar.

Os quatro números

SiglaO que éComo se obtém
PBPeso bruto: o alimento como se compra, antes de qualquer limpezaBalança, no recebimento
PLPeso líquido: o alimento limpo e cru, pronto para a preparaçãoBalança, depois de limpar
FCFator de correção: quanto se compra para ter um quilo aproveitávelPB ÷ PL
ICÍndice de cocção: quanto o alimento rende depois do fogoPeso cozido ÷ PL

As definições seguem o guia de indicadores de pré-preparo do Departamento de Nutrição e Saúde da Universidade Federal de Viçosa.

As fórmulas

FC = peso bruto ÷ peso líquido

O fator de correção é sempre maior que 1. Um FC de 1,25 quer dizer que, para cada quilo limpo que a receita pede, é preciso comprar 1,25 kg.

IC = peso cozido ÷ peso líquido cru

Maior que 1 em alimento que absorve água, como arroz e feijão. Menor que 1 em alimento que perde água no fogo, como carne.

Custo do insumo na receita = quantidade líquida × FC × preço por unidade de compra

É esta a linha que costuma faltar na planilha da casa. Sem o fator de correção, o custo do insumo sai subestimado exatamente na proporção do que foi descartado na limpeza.

A conta, com números

Um sanduíche, com quatro insumos

A receita pede 120 g de blend, 30 g de alface limpa, 40 g de tomate limpo e um pão. Preços de compra: blend R$ 38/kg, alface R$ 9/kg, tomate R$ 7/kg, pão R$ 1,20 a unidade. Fatores de correção medidos na casa: blend 1,00, alface 1,45, tomate 1,12.

Blend: 0,120 × 1,00 × 38,00 = R$ 4,56
Alface: 0,030 × 1,45 × 9,00 = R$ 0,39
Tomate: 0,040 × 1,12 × 7,00 = R$ 0,31
Pão: 1 × 1,20 = R$ 1,20
Custo do prato = R$ 6,46

Sem os fatores de correção, a mesma conta daria R$ 6,29. São 17 centavos por sanduíche. Em 3.000 sanduíches por mês, R$ 510 que a casa achava que tinha e não tem.

Do custo ao preço de venda

Com o custo do prato na mão, o preço mínimo sai da meta de CMV.

Preço mínimo = custo do prato ÷ meta de CMV

Meta de CMV em decimal: 32% vira 0,32. O resultado é piso, não preço final — praça, concorrência e percepção de valor entram depois.

No exemplo acima, com meta de 32%: R$ 6,46 ÷ 0,32 = R$ 20,19. Vender a R$ 19 não é uma promoção — é operar acima da meta de custo sem saber.

Os cinco passos da medição

  1. Pese o insumo como ele chegaNa balança, sem limpar nada. Este é o peso bruto, e é o peso pelo qual você pagou. Anote a unidade de compra e o preço pago naquela compra.
  2. Limpe e pese de novoDepois de descartar casca, talo, osso, gordura e aparas. Este é o peso líquido, e é o que de fato vai para a preparação.
  3. Calcule o fator de correçãoDivida o peso bruto pelo peso líquido. O resultado é sempre maior que 1, e diz quanto de produto comprado é preciso para obter um quilo aproveitável.
  4. Cozinhe e pese uma terceira vezO peso depois da cocção dividido pelo peso líquido cru dá o índice de cocção. Carne perde água e encolhe; arroz e feijão ganham água e crescem.
  5. Monte o custo da porçãoPara cada insumo: quantidade da receita, multiplicada pelo fator de correção, multiplicada pelo preço por unidade de compra. A soma dos insumos é o custo do prato.

Onde a ficha técnica encosta no estoque

Uma ficha técnica que existe só no papel serve para precificar. Uma ficha técnica ligada ao estoque serve para controlar: cada prato vendido baixa a quantidade da ficha, e a diferença entre o que a ficha previa e o que o inventário encontrou é a medida objetiva de porção fora do padrão.

É o teste mais duro que uma cozinha pode fazer em si mesma, e o mais útil. Se a ficha diz 120 g e o estoque some na velocidade de 138 g, a conversa deixa de ser sobre impressão e passa a ser sobre 18 gramas.

Perguntas soltas

O fator de correção muda ao longo do ano?
Muda, e bastante em hortifruti. Alface de safra rende mais que alface de entressafra, e a diferença aparece direto no custo do prato. Refaça a medição por temporada nos insumos de maior peso na receita.
Preciso de ficha técnica para todos os pratos?
Comece pelos que mais vendem. Numa casa comum, uma dúzia de pratos responde pela maior parte do faturamento, e é neles que um erro de porção de 10% custa dinheiro de verdade. Os demais entram depois.
Ficha técnica é a mesma coisa que receita?
Não. A receita diz como fazer. A ficha técnica diz quanto custa, quanto rende e quanto sobra: peso bruto, peso líquido, fator de correção, índice de cocção, custo por porção e rendimento. Uma serve à cozinha, a outra serve à conta.
Como usar a ficha técnica para definir preço de venda?
O custo do prato dividido pelo percentual de CMV que você quer praticar dá o preço mínimo. Um prato que custa R$ 12 com meta de CMV de 32% precisa vender a pelo menos R$ 37,50. Daí em diante entram praça, concorrência e percepção de valor.

Fontes

  1. Guia prático de indicadores de pré-preparo e preparo dos alimentos: fator de correção e fator de cocçãoDepartamento de Nutrição e Saúde, Universidade Federal de Viçosa, 2023
  2. Ficha técnica: como calcular preços e reduzir custos na venda de alimentosUniversidade Federal de Mato Grosso, repositório institucional
  3. Entendendo o CMV de restaurante: como fazer o cálculo e sua importânciaSebrae PR, por Carlos Alexandre De Abreu Andreasse, 2 de outubro de 2024